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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Arrisquei estancar, mas era tanto que não era sensato suportar. Parti feliz quando tanto vazio fez uma solitária lagrima voltar.
Resguardo este espaço de momentos onde não quero - ou sustento - mais nada.
Renuncio a realidade e traço objetivos como quem morre, essa lágrima trouxe consigo um último desejo... De que tudo fique longe, e por fim se apaga a ultima luz neste olhar que daqui para a frente estará sempre fechado.
Vi claramente, tantas vezes, o próprio senhor das moscas titereiando estas máscaras que agora rejeito acompanhar uma novela que em círculos sempre se renova.

...e sobre o anterior questionamento, escolho matar a alma e continuar vivendo.





O Deus-Verme
Augusto dos Anjos

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrôpicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!




+ William Golding - o senhor das moscas (livro pdf - 4shared link) (Wikipédia)
+ "Senhor das Moscas" (Wikipédia)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Soneto IV

Flutua a Esquina e bandolins feridos
Tocam sobre o silêncio das vielas
A sombra veste o bairro e seus vestidos
Dançam a valsa triste das janelas
Nos quartos as jangadas descem o rio
Tripuladas de mudos navegantes,
O sono fala a língua do arrepio,
E os livros sonham longo nas instantes.
O asfalto vai subindo pelas portas,
Tingem-se escadarias alumbradas,
E tudo é noite, seiva de horas mortas,
E tudo são canções apascentadas.
Apenas o silêncio no universo,
Soprando paina sobre a cor do vento



(Paulo Bonfim - Sudito da Noite)

É o silêncio...

O Silêncio
Pedro Kilkerry

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sôbre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem prêsa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda êsse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Nôvo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.........................................

E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcêgo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus...
É mar, porque não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! Noites! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!”

(Espumas Flutuantes)